Altar-mor Senhor Bom Jesus dos Martírios. Igreja de Sant'Ana. Renato Pereira
Já que estamos na quaresma post um texto escrito por Raul Astolfo Marques, em 1970, na Revista Maranhense de Cultura sobre o glamour das Irmandades religiosas e as festas da quaresma realizadas por elas na cidade de São Luís até a década de 1950.
QUARESMAIS
Raul Astolfo Marques
A procissão dos Navegantes
É a procissão do Bom Jesus dos Navegantes que se realiza na sexta-feira da Quaresma consagrada às Sete Dores de N. Senhora com esplendor e pompa por demais grandiosos.
A instituição dessa Irmandade teve como principais obreiros irmãos divergentes, vindos da do Senhor dos Passos, que era a mais antiga das de comemoração quaresmal.
O compromisso reorganizando a Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Navegantes, erecta em sua capela, na igreja do convento de Santo Antônio da capital maranhense, foi sancionado por Carta de Lei nº 621 de 25 de setembro de 1861, pelo presidente Francisco Primo de Sousa Aguiar, havendo sido decretado pela Assembléia Legislativa Provincial, a 20 do mesmo mês e ano. Compunha-se a mesa dessa corporação legislativa dos deputados Alexandre José de Viveiros, como presidente, José Antônio Moreira da Rocha e José Belizário Henrique da Cunha, 1º e 2º secretários, respectivamente. Encerra o citado Compromisso onze capítulos e 59 artigos e competentes parágrafos, aprovados por provisão de 9 de agosto de 1861 do vigário capitular do Bispado. E, para todos os efeitos, ficou ele constituindo o ato da união e lei orgânica da Irmandade, obrigando a todos os irmãos, na época e ulteriormente, o cumprimento fiel das disposições.
Como fins principais, tinha a confraria dos Navegantes animar e sustentar sempre, com a precisa decência, o culto do seu patrono, em duas festividades imponentes.
A Festa Solene do Bom Jesus dos Navegantes tinha lugar em janeiro, no dia do S.S. Nome de Jesus, ou noutro mais próximo possível, quando se desse a impossibilidade de ser naquele. Efetuava-se na capela, e se não pudesse ser ou o desejasse o provedor, sê-lo-ia na igreja do convento de Santo Antônio. Essa festividade constava de vésperas, missa solene, sermão e Senhor exposto.
A outra festa era a procissão.
Eram ambas feitas pelo provedor e, na sua falta, pela Irmandade.
Incumbia a direção desta a uma Mesa, composta de Provedor, secretário, zelador, procurador e doze mesários, anualmente eleitos, e um comissário, que deveria ser sempre o revmo. prelado do convento de S. Antônio, e o qual, na sua qualidade de comissário nato da confraria e membro da Mesa tinha ingerência idêntica ao dos outros mesários, especialmente na parte religiosa.
Para ser admitido ao grêmio da Irmandade, deveria o pretendente ser de “Sangue limpo, ter vinte e um anos de idade, meio decente, de substancia e estar isento de pena”. Comprovado satisfazer o suplicante a todas essas exigências do compromisso, o que somente se lhe concedia após uma sindicância que às vezes, durava mais de um ano, passando pelos cadinhos da inquirição, dava- se lhe a patente de Irmão, para o que se estatuíra a jóia de cinco mil réis e a quota anual de um mil réis.
O irmão falecido tinha, por sua alma, três missas rezadas; se era mesário, cinco e, estando no cargo de provedor, dez. No mês de novembro realizava-se um ofício fúnebre, por alma de todos os irmãos em geral e benfeitores.
A obrigatoriedade de acompanhar os confrades que faleciam, até ao último jazigo, abrangia os confrades de qualquer categoria na Irmandade, que compareciam revestidos das suas opas ou mesmo sem elas.
As insígnias dos Navegantes são capa de seda roxa, com murça e capuz azuis.
Pelo estatuído, se não pudesse a procissão ter lugar na sexta-feira quaresmal em que se celebram as Sete das Dores de Nossa Senhora, seria a cerimônia transferida para domingo de Ramos, segundo o permitira o Bispo d. Manuel Joaquim da Silveira, a 14 de junho de 1861.
Na véspera da solenidade, ao anoitecer, era a imagem do Bom Jesus dos Navegantes, transladada de sua capela para a capela mor de Santo Antônio ou para outra igreja, “havendo justo impedimento ou casos extraordinários que assim o exigissem”. Dada esta última hipótese, o Senhor iria coberto e os irmãos o acompanhavam sem os balandraus.
Era, como se vê, tal cerimônia um arremedo frizante da fugida do Senhor dos Passos.
No dia seguinte, a procissão saia da igreja ou capela-mor de S. Antônio, depois do Sermão e obedecia à mesma ordem das demais de Quaresma, figurando no préstito os mesmos símbolos da penitência e da devoção, com o aparatoso cerimonial.
Ao chegar à porta da igreja, ao som dolente dos sinos do seu cadenciado dobrar à Páscoa, o andor do Bom Jesus parava; na sua frente surgia, sobre um banco adequado, o anjo - cantor ou da verônica, em traje cuidadosamente divino e cingindo custoso diadema. Era sempre escolhida preferencialmente uma menina que aliasse à expressão de graciosidade e formosura o tom místico e adorável da personagem que simbolizava.
A multidão acotovela-se, numa porfiada preferência de contemplar de perto o rosto angélico da criança cantadora e, tomada de indizível ansiedade pela audição dos versículos que ele entoava. Mas a cerimônia prosseguia solene e grandiosa. Desenrolando o sudário ensaguentado, o anjo entoava a antífona – O vos quitransitis per viam, - e, finda a cantata, as bandas de música executavam marchas fúnebres. Então, a procissão seguia, indo atrás do andor do santo, em alas, as irmãs precedendo o andor de N.S. das Dores.
O giro que o préstito dava era; ao sair, ruas de S. Antônio, da Cruz, do Sol, e de Nazaré, descendo pela da Estrela, caminho da Praia Grande até defrontar a rua Direita, pela qual subia, vindo à rua Formosa, dobrando pela Grande e entrando na de S. João, a percorria a pé ao largo de S. Antônio, ao recolher-se.
O Senhor Bom Jesus visitava os Santos Passos, na própria igreja; o primeiro e o do Encontro ao sair a procissão, e, ao recolher-se os outros. Havia, então, novo sermão seguido de adoração ao Calvário e cânticos do anjo da Verônica e de Motetes.
A Irmandade, posteriormente à sua reorganização, foi tornando crescente, cada vez mais, a pompa e o brilho das suas festas, máxime desta da Quaresma, que, iniciada pela procissão, se seguia até ao Domingo da Ressurreição. A missa solene do Domingo de Ramos, as cerimônias do lavapés e adoração no Jardim das Oliveiras, na quinta-feira maior; a missa dos Presantificados, o descimento da Cruz e a procissão do Senhor Morto, na sexta-feira da Paixão, e as missas da Aleluia, eram cerimônias a que a confraria dos Navegantes impulsionava brilhantismo máximo, a elas acorrendo a família maranhense no que mais alto existia socialmente falando.
Embora prosseguissem por muitos anos as Mesas administrativas, sucessivamente eleitas, na tarefa que lhes incumbia cumprir à risca - sindicar-se o candidato a irmão era “de sangue limpo”, a decadência da Irmandade se manifestou frizante nos últimos tempos.
Comerciantes abastados e lavradores riquíssimos, que formavam o baluarte mantenedor dos preconceitos predominantes na Irmandade, foram sucumbindo, e o rigorismo da sindicância se foi enfraquecendo palpavelmente. Passou-se uma esponja sobre o “ódio de casta”, de modo que os cabelos louros e os olhos azuis perderam o seu exclusivismo, para darem lugar a uma fraternidade bem mais humana e, até certo ponto, maiormente cristã.
E poderão bem avaliar do fausto e grandeza, que lhe era apanágio, e da justa fama que até hoje lhe vem aureolando o passado.
Crucifixo. Metal. Igreja da Mãe de Deus. Renato Pereira
Na 4ª sexta-feira quaresmal, consagrada à comemoração das Cinco Chagas de N.S. Jesus Cristo, realiza-se a procissão do Senhor Bom Jesus dos Martírios. A irmandade a quem incumbe esse culto denomina-se da – Santa Cruz dos Martírios de Nosso Senhor Jesus Cristo, e é erecta na igreja da Senhora Sant’Ana, desta cidade.
Fundada posteriormente à da Santa Cruz dos Passos, é depois desta, a mais antiga das de comemoração da Quaresma.
O Decreto da Assembleia Legislativa Provincial, aprovando o compromisso da mesma Irmandade, foi mandado executar pela carta da Lei nº 313, de 24 de novembro de 1852, sancionada pelo presidente da província, dr. Eduardo Olímpio Machado, conjuntamente com o da irmandade do S.S. Sacramento da freguesia de Nossa Senhora da Vitória, erecta na Sé (Catedral). A câmara legislativa decretante aprovou-o em 15 do mesmo mês e na, compondo a mesa da Assembleia os deputados José Martins Ferreira, como presidente; Antônio Joaquim Tavares, João Julião de Moraes Rêgo, como 1º e 2º secretários, respectivamente.
Prescrevia o compromisso aos dirigentes da confraria, além da procissão na sexta-feira estatuída, se efetuasse a festividade do seu patrono no dia 14 de setembro de cada ano, ou no primeiro domingo seguinte a esse dia, e na qual deveria haver missa cantada com o S.S. Sacramento exposto no trono e sermão, obedecendo essas cerimônias à máxima solenidade possível.
Constava do compromisso uma cláusula obrigando a quem aspirasse fazer parte da confraria, se fosse pessoa sujeita, quer homem quer mulher, que juntasse ao requerimento de admissão “licença”, por escrito, do seu “senhor”.
Muitos eram os sufrágios a que tinham direito os irmãos dos Martírios. Em qualquer dia do oitavário dos defuntos, no mês de novembro, ao arbítrio da Mesa administrativa, prescrevia o aludido Compromisso a realização dum ofício solene por todos os irmãos falecidos, e ao qual era obrigatória a assistência por parte dos irmãos sobreviventes, todos revestidos das suas opas, havendo também distribuição de esmolas.
Na quinta-feira, véspera da procissão, ao começo da noite, a imagem de Bom Jesus era conduzida solenemente já andor, para o corpo da Igreja de Sant’Ana onde se ia venerar; e após a entonação de Moteles, era a imagem velada aos devotos, fazendo os irmãos constantes da pauta o quarto que nesta lhes incumbia. O desvendamento do andor aos fiéis dava-se momentos antes de sair a procissão, logo que findava o sermão denominado – da saída.
Do compromisso consta o modo porque se deveria fazer a procissão, como possamos a resumir.
Terminando o sermão organizar-se-á a procissão para sair, começando o cortejo pela Guião da Penitência, conduzido pelo irmão mais moderno do ano antecedente, seguindo-se-lhe o Pendão; e tanto deste como daquele, as guias serão levadas pelos confrades que a Mesa determinar.
No caso de morte de algum irmão, no exercício do cargo de Provedor, ou alguns dos instituidores da Irmandade, além de ser por toda esta acompanhando o corpo até a sepultura, efetuava-se, no sétimo dia de falecimento, missa cantada, no altar de Bom Jesus, seguindo-se a esse ato responso, com encomendação, em presença da sepultura do sufragado, celebrando-se mais dez missas rezadas, por alma do mesmo confrade.
O irmão falecido como secretário, zelador, tesoureiro ou procurador, tinha, afora o acompanhamento à sepultura, direito a ser sufragado com seis missas rezadas, por alma do mesmo acompanhamento e cinco missas; se simples irmão, não ocupando cargo na confraria, quatro missas, sem prescindir-se do acompanhamento do enterro.
O distintivo dos irmãos consta de balandraus, formados de capa roxa e murça verde, tendo ao lado esquerdo desta uma cruz bordada a ouro, com todos os martírios de Cristo.
Logo após formará o irmão mais moderno, conduzindo a respectiva vara, a ele se seguirá a cruz da irmandade, com manga roxa, abrindo caminho a confraria, em alas, sob a direção dos irmãos zelador e procurador. Adiante da comunidade ou comunidades, que acompanharem a procissão, irá o andor do Bom Jesus, carregado por quatro irmãos mesários, aos lados dos quais formarão quatro outros conduzindo lanternas. Atrás logo do andor seguirá o irmão secretário, com a vara que lhe competir.
Irá depois o andor da Senhora das Dores, carregado por quatro confrades dos mais idosos ou graduados, também com quatro lanternas, ladeando-o.
No fim da comunidade irá o sacerdote que presidir a cerimônia, sob o pálio, com o santo Lenho, formando em último escalão o irmão procurador, com a vara simbólica do seu cargo.
Recolhendo-se a procissão, e findo o sermão da entrada, havia a cerimônia da adoração ao Calvário, sobre o qual figuravam todas as crianças que, simbolizando anjos, tomavam parte no préstito.
No regulamento interno da Mesa da Irmandade, para a execução do Compromisso, há um artigo das Disposições Gerais determinando que, no dia da procissão, se colocaria, entre o Guião da Penitência e o Perdão, um homem vestido de negro com um clarim, no qual deveria tocar durante o giro processional.
No artigo do Compromisso determinando esse giro dizia: “Sairá esta procissão da igreja de nossa residência, procurando a de S. João e descendo pela rua do Sol, voltando na da Palma, seguindo até à de Sant’Ana, por onde subirá até recolher-se na mesma igreja, onde tornará a haver outro sermão: sendo toda esta despesa, como já foi dito, à custa do Provedor; e nunca esta Procissão se poderá afastar deste círculo, senão, por causa de qualquer desarranjo das ruas do mesmo círculo”.
Houve, com efeito, não somente por ocasião do calçamento da rua de Sant’Ana, como pelo dos consertos, e também calçamento de outras ruas, compreendidas no giro prescrito, necessidade de ser este alterado. Removido, porém, tal óbice, não se conservou a inalteração do giro processional que por muitos anos permaneceu ampliado, Istoé, na saída, quanto o préstito subia a rua de Sant’Ana até encontrar a do Passeio, e pela qual se encaminhava para descer pela Rua Grande, até dobrar a de S. João, onde retornava o giro estatuído.
Nos últimos tempos esse giro, tem ainda sido alterado a bel talante da Irmandade.
Embora sem a pompa e o esplendor com que nos primitivos tempos procuravam revesti-la a procissão do Senhor Bom Jesus dos Martírios ainda hoje constitui parte integrante da nossa comemoração quaresmal, esforçando-se a sua Irmandade em imprimir a todas as cerimônias perante os olhares dos pósteros, o mesmo cunho tradicional que formava outrora a grandeza do seu culto.
A PROCISSÃO DA CANA-VERDE
Temos na sexta-feira consagrada à comemoração do Preciosíssimo Sangue de N.S. Jesus Cristo, e a quinta da Quaresma, a procissão do Senhor Bom Jesus da Cana Verde.
Instituída a Irmandade deste Santo, em 1850, por dissidentes das dos Martírios, é erecta na igreja do Convento da Nossa Senhora das Mercês desta Capital.
O seu culto compromissal consta da veneração da nossa S.S. imagem do nosso Senhor Deus e Redentor, com a invocação de N.S. Bom Jesus da Cana Verde, cuja festividade solene é no primeiro domingo do mês de maio ou no domingo seguinte se houver impedimento naquele, com o maior esplendor e devoção, vésperas, missa cantada e o S.S. Sacramento exposto, e da procissão quaresmal, na sexta-feira intermédia às das procissões do Bom Jesus dos Martírios e dos Navegantes.
O Compromisso da Irmandade foi baixado por Carta da Lei nº 324, de 2 de outubro de 1852, e decretado pela Assembleia Legislativa Provincial, a 23 de setembro do mesmo ano. Sancionada pelo Presidente dr. Eduardo Olímpio Machado, a Câmara decretante da referida lei tinha a sua mesa composta de Tibúrcio Valeriano da Silva Tavares, Presidente, e Antônio Joaquim Tavares, 1º, e Adriano Augusto Bruce Barradas, 2º secretário.
A direção de toda a confraria dependia da mesa, composta de provedor, um secretário, um zelador, tesoureiro e procurador, que seriam pessoas livres, e de doze mesários, cuja maioria deveria ser composta de cativos.
Determinava o Compromisso que o “Reverendo Comendador dos Religiosos do Convento de N.S. das Mercês”, ou quem suas vezes fizesse seria o Comissário da Irmandade, e sempre membro nato da Mesa, assinando com o procurador as patentes dos irmãos.
A todo irmão admitido à confraria se comutava a jóia de entrada de dois mil réis, e daí para cima o que lhe determinasse a sua devoção, pagando de anuidade a taxa de trezentos e vinte réis.
Não bastavam, porém, os dois mil réis de jóia, e a contribuição anual de uma pataca, para ser recebido no seio da corporação. Eram estatuídas tantas formalidades para recepção, que se tornava dependente de demorado empenho a entrada para a irmandade. Deveriam os candidatos ter boa conduta e sã consciência, que livres quer cativos, homens ou mulheres. E nunca o número dos irmãos livres deveria ser superior ao dos cativos, mas destes, os que, porventura, se viessem a liberta não seriam expelidos da confraria, ainda que por tal fato ficasse superior o número de irmãos livres.
No oitavário dos defuntos, era prescrição compromissal, fazer-se aí um ofício solene pelo descanço das almas de todos os irmãos falecidos, e ao qual assistiriam todos os confrades sobreviventes. Se sucumbisse o Provedor no exercício do cargo a Irmandade, além do acompanhamento obrigatório à sepultura, provinha, no dia imediato ao passamento (se não fosse santo ou impedido) um Ofício de nove lições e mandava celebrar, por sua alma, dez missas de esmolas de seiscentos e quarenta réis.
Dos mesmos sufrágios participavam os benfeitores da Corporação tendo direito a cinco missas, também de esmolas de seiscentos e quarenta réis, e os Mesários, que afora o acompanhamento à necrópole e às missas, percebiam, recebida pela família, a quantia de dez mil réis.
E deste sufrágio estatuído para os Benfeitores, participavam igualmente qualquer religiosos do Convento das Mercês.
Todas as sextas-feiras era rezada uma missa no altar do Senhor Bom Jesus da Cana Verde, pela alma de todos os Irmãos sucumbidos.
As insígnias dos irmãos eram balandraus de seda roxa, com murça encarnada e o capuz verde tendo bordada a ouro, ao lado esquerdo da murça, uma cana.
Os preparativos da procissão eram precedidos de reunião da Mesa administrativa convocada para o domingo da Quinquagéssima, e na qual o Provedor e mais Mesários distribuíam os altares dos Sagrados Passos da Paixão de Cristo para o dispêndio com a sua ornamentação, incumbindo desse mister a “cada dois irmãos que melhor lhe parecessem”. As irmãs eram obrigadas a darem os Anjos para a procissão, em maior número possível, para ressaltar seu esplendor.
Num dos últimos artigos do Compromisso se mostrava a forma porque a procissão do Senhor Bom Jesus da Cana Verde deveria ser feita, e a qual era.
Acabado o sermão do Pretório, que o Provedor e a Mesa encomendariam ao melhor Pregador que houvesse, começaria a saída da procissão, pelo Guião da Penitência, conduzido pelo Procurador. Seguir-se-lhe-ia o Pendão levado pelo tesoureiro ou, na sua falta, por outro irmão pertencente à Mesa; e desta seriam os que pegassem nas guias. Logo depois, formava a Irmandade, por sua ordem, e, no lugar competente o andor do Santo, carregado pelos Mesários ou outros irmãos.
Após o andor, formava a comunidade de Religiosos, de N.S. das Mercês e, depois, outras comunidades e o Clero, seguindo-se quem lhe presidisse, revestido, com o Santo Lenho, debaixo do pálio, atrás do qual formava o Provedor, com a vara respectiva.
O governo da procissão corria por conta dos irmãos provedor, zelador, tesoureiro e procurador.
Depois do préstito ter dado o giro, se recolhia ao mesmo convento, onde havia então a adoração ao Santos Passos e o sermão do Calvário.
O giro processional era, saindo do templo, pela rua da Cascata, subindo a rua Formosa até entrar na Rua Grande, indo por esta encontrar a de São João, e, passando pela frente da respectiva igreja, descia a rua do Sol, entrando pela de Nazaré, para tomar a da Estrela, que percorria em toda a sua extensão, até ao largo das Mercês, ao recolher-se.
Ainda hoje se fala da pompa com que a Irmandade da Cana Verde revestia a procissão do seu patrono. As alfaias e os paramentos, tinham, no seu elevado valor, a prova da aplicação do rendoso patrimônio que a confraria logrou possuir. Logo depois da promulgação da Lei do Ventre Livre, que traz gloriosamente o nome do primeiro Rio Branco, a confraria organizou, entre os seus consócios uma sociedade beneficiente anexa à irmandade, tendo na diretoria fundadora, José de Azevedo Maia, Vicente Apóstolo de Miranda e Joaquim Francisco do Nascimento, como Presidente, vice e 1º secretário respectivamente. Decorridos poucos anos a associação veio a dissolver-se, criando-se a Caixa-Pia, anexa à Irmandade da Cana Verde, instituição esta que, embora progredindo imenso, foi assediada por questiúnculas de economia interna, tendo afinal de dissolver-se judicialmente.
Um dos primeiros provedores escolhidos foi Antônio da Silva Maia, conhecido como Maia Neto; era proprietário de grande e popular estabelecimento de fazenda e quinquilharias à rua Formosa e que, depois, foi irmão benfeitor. Os demais proprietários da Casa Maia Neto, denominação porque também veio sendo conhecido o importante bazar, seguiram a benfeitoria do seu chefe para a Irmandade projetando-a grandemente.
A confraria se foi impulsionando de ano para ano.
Da Europa veio uma linda e perfeita imagem da Senhora das Dores, cujo andor passou a sair do préstito religioso, na mesma ordem que os demais da quaresma.
Desde a véspera da procissão ao anoitecer, quando se efetuava a trasnladação da imagem, já no andor para a porta da igreja, principiavam os quartos em que os irmãos, na sua unanimidade, tomavam parte.
Era imenso o movimento, puramente popular em todo o bairro das Mercês, distendendo-se pelo do Desterro. Celebrava-se, com ceiatas lautas e prolongadas até a madrugada do dia da procissão, a festividade do carnal vulgarmente chamada – dos prestos da Cana Verde.
E, no impecável tom de religiosidade, que a pouca cultura intelectual dos festejos não deixava todavia, de imprimir à cerimônia, numa imitação a todo o transe, das congêneres, não se deixava de perceber o seu orgulho quanto a pompa e o brilhantismo grandiosos não decresciam uma única linha, atingindo o pretendido alvo que era ofuscar a procissão dos Martírios, tornando a da Cana Verde sempre mais faustosa, bem mais imponente.
Na atualidade, poderemos observar ainda um resquício do que foi essa comemoração quaresmal, meio século atrás.
Fonte: Fundação Cultural do Maranhão. Revista Maranhense de Cultura. São Luís. Nº 1, jan-jun, 1974. pg. 69-80.
Confessionário. Renato Pereira.


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