Transcrevemos, abaixo, um poema da professora Anna Maria Patello Saldanha, conforme a cópia original datilografada. O poema com o título de Sonho Negro foi dramatizado por Josimael Caldas nos anos 1980, e performatizado por Renato Pereira em 1998, no aniversário da Mestra.
SONHO NEGRO
Ela estava ali, fazia algum tempo...
Parada! Ensimesmada!
As rugas de suas mãos
Torturavam seu âmago,
Perdida no espaço,
Do que já foi...
Diante do que já é.
De repente, ouviu aquela voz máscula
Estranha sensação,
“- Oh! Minha Baroa!
Minha Princesa!”
Embrutecida, pela brusca interrupção
De seus devaneios inebriantes,
Levantou o olhar desconfiado,
Aquietou-se!
Era um negro,
Moleque, lavador de carro...
Cujos olhos descortinavam
Sintomas da lua...
E continuou o seu discurso,
Indiferentemente
“- Salve Baroa! Que coisa boa!
Eu falo, a senhora escuta!
É bom saber nesta hora,
Que se é entendido.”
Há um clima de mistério.
Que não é insondável,
Nesse falar, nesse escutar...
Pensou ela!
- Nós já existimos, não aqui...
Mas em outra dimensão.
Falava ele!
- Nossas almas um dia,
Viveram nas inatingíveis,
Estrelas cintilantes deste céu!
Onde eu fui um rei,
E você, uma princesa.
Nossos destinos, cruzaram-se
No antes, muito antes
De nós... do agora...
Como sei disto? Não sei!
Mas sei que assim foi,
Porque está escrito
No Cruzeiro do Sul!
Fui um guerreiro real
De estirpe nobre da tribo,
De uma galáxia, deste universo,
Onde a galhardia sobrepujava o covarde!
Onde a força justa, era a vitória dos bravos!
Onde a negritude era a realeza!
Onde eu, filho de fortes,
Ouvia o farfalhar das sedas e peles,
Ornamento de abastança e pujança
Protegendo o corpo
Esguio! Negro! Reluzente!
Bravo! Forte! Belo e Viril!
Que bradava:
Sou Rei! Sou Negro! Sou Gente!
Canto e conto a minha história
E só você, minha princesa escuta,
Porque? Você ignora! Mas eu sei,
A minha trajetória, passo a passo
História de bravos e fortes,
Que morreram lenta e sofredoramente
Na defesa de nossa majestade,
Quando salteadores enlutaram,
De tristeza e dor
O canto real e alegre,
De nossa gente, de nossa raça,
Da nobreza negra!
Quanta matança impune!
Quanto desespero no silêncio!
Do esvair-se, do exaurir-se,
Da real e negra tribo de heróis...
De repente um pensamento maior,
Não é a morte!... Não morri!... Não morro agora!
Lutarei! Sou valente! Sou forte!
Sou um guerreiro! Negro! E Rei!
O suor goteja minha face, meu ser!
Mas não morro!
Já não enxergo! Mas vejo além!
Já não falo! Mas grito!
O meu brado de vida! Oh! Vida!
Já não me movimento!
Já não me sinto!
Mas não morro!
Guerreiro forte e valente
Não morre! Não se acaba! É imortal!
E muito além, no firmamento,
Brilhou mais uma estrela!
O infinito, nesse instante
Ficou mais bravo, mais cheio de luz
Mais negro no seu chão azulão...
Então uma grande chuva de estrelas
Aconteceu...
Celebrando a garra da raça
Que vibra valente no forte rei...
Sobretudo no fim do que já foi
Para eternizar-se no que é.
E foi assim no cosmo
Que eu te conheci princesa!
Nossas constelações avizinhavam-se!
Busquei então no afã de te agradar,
Fios de prata, que da lua
Caiam como néctares,
E teci uma tiara brilhante
Adornada com estrelas e grãos da lua
Para coroar a princesa bela
A minha musa!
Eu o Rei e tu a minha princesa!
E o universo na sua dinâmica eterna
Deixa aparecer no céu a estrela cadente
Então vim parar aqui.
Aqui... Ali... Acolá...
Já não Rei, simples sobrevivente!
Nesse pedaço de chão...
Senti então, já não sou rei!
Não vejo mais as estrelas!
Não sinto mais o infinito!
Já não sou forte, nem rei!
Transformaram-me em ninguém...
Então no desespero forte, uma seiva
Inunda-me com vitalidade e
Meu brado de guerreiro não morreu
Explode no ar e confirma,
- Sou negro, isto jamais se extingue
Sou nobre! Sou forte! Sou Gente!
Estas forças jamais serão mortas.
Estou vivo, nesta terra...
Arranco a mordaça da vida,
Brado com a boca sagrando de lutar
Já não sou o Rei!
Mas sou o seu Rei!
Você não é mais princesa
Mas é a minha princesa!
Porque na grande dimensão do existir,
Fica a imortalidade
Do sentimento maior, o Amor!
Que um guerreiro negro e nobre
Dedicou a você, minha doce musa!
Para todo o sempre.
Anna
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