16 de mai. de 2011

Sonho Negro: um poema de Anna Maria Saldanha

Transcrevemos, abaixo, um poema da professora Anna Maria Patello Saldanha, conforme a cópia original datilografada. O poema com o título de Sonho Negro foi dramatizado por Josimael Caldas nos anos 1980, e performatizado por Renato Pereira em 1998, no aniversário da Mestra.

SONHO NEGRO

Ela estava ali, fazia algum tempo...


Parada! Ensimesmada!

As rugas de suas mãos

Torturavam seu âmago,

Perdida no espaço,

Do que já foi...

Diante do que já é.

De repente, ouviu aquela voz máscula

Estranha sensação,

“- Oh! Minha Baroa!

Minha Princesa!”

Embrutecida, pela brusca interrupção

De seus devaneios inebriantes,

Levantou o olhar desconfiado,

Aquietou-se!

Era um negro,

Moleque, lavador de carro...

Cujos olhos descortinavam

Sintomas da lua...

E continuou o seu discurso,

Indiferentemente

“- Salve Baroa! Que coisa boa!

Eu falo, a senhora escuta!

É bom saber nesta hora,

Que se é entendido.”

Há um clima de mistério.

Que não é insondável,

Nesse falar, nesse escutar...

Pensou ela!

- Nós já existimos, não aqui...

Mas em outra dimensão.

Falava ele!

- Nossas almas um dia,

Viveram nas inatingíveis,

Estrelas cintilantes deste céu!

Onde eu fui um rei,

E você, uma princesa.

Nossos destinos, cruzaram-se

No antes, muito antes

De nós... do agora...

Como sei disto? Não sei!

Mas sei que assim foi,

Porque está escrito

No Cruzeiro do Sul!

Fui um guerreiro real

De estirpe nobre da tribo,

De uma galáxia, deste universo,

Onde a galhardia sobrepujava o covarde!

Onde a força justa, era a vitória dos bravos!

Onde a negritude era a realeza!

Onde eu, filho de fortes,

Ouvia o farfalhar das sedas e peles,

Ornamento de abastança e pujança

Protegendo o corpo

Esguio! Negro! Reluzente!

Bravo! Forte! Belo e Viril!

Que bradava:

Sou Rei! Sou Negro! Sou Gente!

Canto e conto a minha história

E só você, minha princesa escuta,

Porque? Você ignora! Mas eu sei,

A minha trajetória, passo a passo

História de bravos e fortes,

Que morreram lenta e sofredoramente

Na defesa de nossa majestade,

Quando salteadores enlutaram,

De tristeza e dor

O canto real e alegre,

De nossa gente, de nossa raça,

Da nobreza negra!

Quanta matança impune!

Quanto desespero no silêncio!

Do esvair-se, do exaurir-se,

Da real e negra tribo de heróis...

De repente um pensamento maior,

Não é a morte!... Não morri!... Não morro agora!

Lutarei! Sou valente! Sou forte!

Sou um guerreiro! Negro! E Rei!

O suor goteja minha face, meu ser!

Mas não morro!

Já não enxergo! Mas vejo além!

Já não falo! Mas grito!

O meu brado de vida! Oh! Vida!

Já não me movimento!

Já não me sinto!

Mas não morro!

Guerreiro forte e valente

Não morre! Não se acaba! É imortal!

E muito além, no firmamento,

Brilhou mais uma estrela!

O infinito, nesse instante

Ficou mais bravo, mais cheio de luz

Mais negro no seu chão azulão...

Então uma grande chuva de estrelas

Aconteceu...

Celebrando a garra da raça

Que vibra valente no forte rei...

Sobretudo no fim do que já foi

Para eternizar-se no que é.

E foi assim no cosmo

Que eu te conheci princesa!

Nossas constelações avizinhavam-se!

Busquei então no afã de te agradar,

Fios de prata, que da lua

Caiam como néctares,

E teci uma tiara brilhante

Adornada com estrelas e grãos da lua

Para coroar a princesa bela

A minha musa!

Eu o Rei e tu a minha princesa!

E o universo na sua dinâmica eterna

Deixa aparecer no céu a estrela cadente

Então vim parar aqui.

Aqui... Ali... Acolá...

Já não Rei, simples sobrevivente!

Nesse pedaço de chão...

Senti então, já não sou rei!

Não vejo mais as estrelas!

Não sinto mais o infinito!

Já não sou forte, nem rei!

Transformaram-me em ninguém...

Então no desespero forte, uma seiva

Inunda-me com vitalidade e

Meu brado de guerreiro não morreu

Explode no ar e confirma,

- Sou negro, isto jamais se extingue

Sou nobre! Sou forte! Sou Gente!

Estas forças jamais serão mortas.

Estou vivo, nesta terra...

Arranco a mordaça da vida,

Brado com a boca sagrando de lutar

Já não sou o Rei!

Mas sou o seu Rei!

Você não é mais princesa

Mas é a minha princesa!

Porque na grande dimensão do existir,

Fica a imortalidade

Do sentimento maior, o Amor!

Que um guerreiro negro e nobre

Dedicou a você, minha doce musa!

Para todo o sempre.

Anna

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